quinta-feira, 22 de julho de 2010

O comentário que virou postagem

... o melhor e mais genial escritor jamais conseguirá passar pro papel a intensidade de um sentimento. Somos nós que ao ler algo, nos identificamos, e projetamos nas palavras lidas aquilo que carregamos cá dentro.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Das negativas em Memórias Póstumas.


Já muito se escreveu sobre Machado de Assis e sua obra. Hoje me atrevo a resenhar um pouco sobre a minha terceira leitura de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Longe de querer esgotar os temas que a obra levanta, quero antes de tudo imprimir a minha impressão nessa terceira leitura, a impressão das negativas. O último capítulo leva esse título: das negativas, mas elas permeiam o livro todo, desde o começo até a última página. Não esqueçamos que as Memórias começam dedicadas ao verme que primeiro roeu as carnes do autor, e terminam reforçando a miséria da vida, quando junto com os saldos negativos, o autor lamenta (ironicamente) não haver tido um filho pra transmitir esse legado mísero. O livro pode ser lido como uma crítica ao ser humano, e de fato ele é, mas nessa minha terceira leitura eu enxerguei além. Criticar o ser humano é tendência em toda a obra do Machado, desde sua fase romântica. Em Memórias Póstumas ele vai além, e critica a própria vida. Na condição de morto e livre da hipocrisia e de outros sentimentos que regem a existência humana, o narrador Brás Cubas nos mostra um quadro ácido da vida. O amor é questionado em figuras como a personagem Marcela, que o amou por quinze meses e onze contos de réis. A vida é questionada em existências como a de Dona Plácida. A vida é pintada sem as cores do romantismo, como quando o filósofo Quincas Borba expõe o Humanitismo ao ver dois cachorros brigarem por um pedaço de osso. A vida é pintada com pinceladas cruéis. E é ela a principal personagem dessas memórias. Desde o começo, o narrador quer falar de vida, e já começa ironizando a sua, na dedicatória do livro. Com sua pena por vezes ácida, por vezes cruel, por vezes assustadoramente real, Machado de Assis nos faz enxergar a vida sem os floreios que costumamos dar a ela para tentar aliviar a nossa condição de reles mortais. A obra, antes de uma crítica a sociedade, ao ser humano, a diferença de classes, ao amor de conveniências, e a tantas outras críticas possíveis dentro do livro, é uma crítica a vida, essa vida que se apresenta tão deliciosa a nós, mas que mesmo assim, está cheia de negativas. A principal delas? A morte.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Memorial do Convento - José Saramago.


Algumas estórias são como fotografias que a mente congela. De tão intensas nos ficam gravadas imagens das cenas que nos são sugeridas imaginar. Não é segredo que sou fã de Saramago e da sua escrita fascinante, mas tietagem a parte, ele é um dos escritores que mais consegue que eu fotografe algumas das cenas de livros em minha mente. Se para mim A Caverna é declaradamente o seu romance de que mais gosto, é Memorial do Convento a obra que mais me apresenta imagens dignas de se gravar. A construção do convento é para mim mais heroico do que a guerra de Troia. A imagem daquela pedra descomunal tendo que ser transportada seguramente desafia qualquer diretor de cinema. E o que dizer da passarola nas duas vezes em que ela ganha o céu? E de Blimunda que recebe Baltazar entre as palhas da manjedoura, ou ainda, a imagem mais marcante, quando na fogueira da maldita inquisição queima um homem com um gancho no lugar da mão esquerda? Não menos desesperador é Blimunda a procurar por seu homem, e o espigão que atravessa a costela do padre devasso. Memorial do Convento é para mim uma sucessão de imagens que vão se sobrepondo ao longo do romance, e que incomodam, perturbam, fascinam. É para mim um romance que jamais deve virar filme, porque acredito que ninguém seria capaz de captar a beleza (sim, há beleza no trágico) das imagens que imaginei.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Memórias póstumas de Machado.

Machado bem poderia ter aprendido com Brás Cubas a arte da narração além túmulo.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Em Liberdade.


Tem se tornado cada vez mais freqüente: ficcionalizar pessoas e situações reais. Ficcionalizamos a guerra de Canudos, o descobrimento do Brasil, a guerra de Tróia, as grandes navegações portuguesas. Ao se olhar para a história da literatura constata-se que não é de hoje o hábito de tornar ficção uma situação real. Também muitos personagens que povoam o universo literário existiram num chamado mundo real. Basta citar Dante em sua Divina Comédia, colocando-se ele próprio como personagem de sua saga. Ou Camões que eternizou Vasco da Gama na sua epopéia que narra a saga dos portugueses em busca do caminho marítimo para a Índia. Não é de hoje que os escritores buscam no mundo real um ponto de partida para fazer arte. Dante chega a ir além, quando coloca criador e criatura dentro de uma mesma obra, afinal, ao percorrermos as páginas de sua Divina Comédia encontramos Odisseu (Ulisses) e também seu criador, Homero.
Jogar com as possibilidades literárias é algo que os escritores fazem há muito tempo. Mas o que acontece quando ficcionaliza-se o próprio universo ficcional? Não são raras as obras em que encontramos um dialogismo literário. Exemplos? Capitu, personagem de Machado de Assis, é na literatura brasileira a personagem mais retomada por outros escritores. Podemos citar Dalton Trevisan, Fernando Sabino, Ana Maria Machado, Domício Proença Filho, entre outros que novamente deram vida e voz a Capitu. Obras que dialogam com outras obras, escritores que dialogam com outros escritores. Como exemplo máximo de escritores que dialogam com outros escritores temos Em Liberdade de Silviano Santiago. Em Liberdade é uma ficção que se propõe a apresentar um suposto diário do escritor Graciliano Ramos a partir do momento em que este deixa a cadeia como preso político. Não se trata de narrar as memórias do cárcere, algo que Graciliano fez depois que esteve preso, mas sim, de materializar as percepções de um homem, de um escritor, de um intelectual que depois de um período de confinamento é posto em liberdade. Silviano Santiago ficcionaliza Graciliano Ramos, povoa o universo ficcional a partir de situações reais e dramáticas vividas por um dos mais importantes ficcionistas do nosso país. E o faz com uma maestria que lhe rendeu o prêmio Jabuti de melhor romance. Nessa ficção, Silviano nos apresenta um Graciliano maltratado, sofrido, angustiado, perdido. Temos o Graciliano homem, o Graciliano escritor, o Graciliano político, o Graciliano intelectual, e todas essas facetas compõem um Graciliano completamente humano. Ficcionalizando Graciliano Ramos, Silviano Santiago consegue tecer considerações sobre os rumos da literatura no Brasil, a condição do escritor no nosso país, e sobre a literatura de uma maneira geral. Nas páginas do suposto diário nos chegam as implicações da arte do fazer literário.
A maneira como se dá a construção da obra também é algo digno de comentário. O leitor está diante de um suposto diário escrito pelo escritor Graciliano Ramos, que é entregue a um amigo deste para que seja publicado 25 anos depois da sua morte. No entanto, por razões explicadas já no início da obra, o diário vai parar na mão de Silviano Santiago, que satisfaz o desejo do escritor e 25 anos após a morte de Graciliano publica suas primeiras palavras depois que é posto em liberdade. O leitor se encontra diante de um jogo. Cabe a ele aceitar o pacto ficcional e adentrar pelas páginas do diário acreditando que o diário foi escrito por Graciliano Ramos. Se não houver esse pacto, não há obra.
Em suma, Silviano Santiago consegue não apenas dialogar com outro escritor e com sua obra, mas também dialoga com as maneiras do fazer literário e com o próprio fazer literário. Em liberdade é romance, é crítica, é história, e é experimentação na arte de narrar.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

José Saramago e a estrutura social.


Escritor aclamado e premiado, José Saramago é dono de uma escrita contagiante. Ao se começar a ler qualquer um de seus romances o leitor é preso pela maneira singular que o escritor tem de narrar uma estória, e, seguramente, não deitará o livro sem aquela angústia que nos causa as suas inusitadas situações criadas. E acredito que empreguei adequadamente o termo 'inusitadas' para as situações criadas pelo autor. Uma epidemia de cegueira branca que se espalha por um país, ou um pedaço de terra que se desprende de repente do continente e começa a navegar sozinho não me parecem situações muito corriqueiras. Costumo definir literatura como um mundo possível, e nesse sentido, Saramago é mestre em criar possibilidades para os nossos mundos. Não apenas sua escrita milagrosa, inteligente e bem trabalhada, também os argumentos de seus romances são fascinantes.
Saramago não diz, sugere. E atrás de suas tramas bem articuladas se pode notar uma crítica feroz ao modelo de sociedade ao qual estamos estruturados. Em A Caverna essa crítica parece mais aberta, com Cipriano Algor lutando por sobreviver em um mundo que tudo descarta, um mundo onde ele parece não ter mais lugar, mais serventia. Retomando Platão, Saramago nos conta uma estória moderna de como vivemos em um mundo de ilusões, e de como a sociedade se estrutura para manter os indivíduos acorrentados ao modelo social e de vida já pré-estabelecidos.
Mas se em A Caverna essa crítica à estrutura social parece mais declarada, em outros romances ela é sugerida por detrás das tramas centrais das estórias. Em Ensaio Sobre a Cegueira, a estória sobre a epidemia de cegueira branca carrega implicações de como é frágil a nossa estrutura social. Em questão de dias o país se converte num caos. Saramago nos mostra uma sociedade frágil e fragilizada, caótica e egoísta, e trabalha os mais diversos instintos humanos nessa estória de luta pela sobrevivência em um mundo novo e desconhecido.
A estrutura social é novamente bagunçada quando se trata de A jangada de Pedra. Quando inexplicavemente a Península Ibérica se desprende da Europa, seus habitantes abandonam seus lares e partem em um êxodo sem rumo, eles próprios dentro da península, e a própria península, que parece navegar sem direção. Nessa atmosfera de falta de rumo, além da clássica pergunta: 'quem somos?, onde estamos?, para onde iremos?', a estrutura social entra em colapso quando se descobre que a península irá se chocar com outro pedaço de terra. Saramago descreve então o caos na sociedade, a situação das cidades, dos aeroportos, das estradas, dos hotéis, e mais importante, das pessoas.
E os exemplos não se esgotam aqui. Poderia ainda citar As intermitências da morte, quando esta para de trabalhar por puro capricho, levando a sociedade a uma situação mais do que caótica. Poderia também falar de Levantado do chão e sua temática do mais forte explorando o mais fraco, ou ainda a descrição hierárquica do Conservatório Geral do Registo Civil de Todos os Nomes. Em seus romances, seja abertamente, seja nas entrelinhas, Saramago nos chama a atenção para a estrutura social e sua fragilidade. Por isso deve ser leitura obrigatória. Mais do que situações inusitadas e mundos possíveis dentro de suas páginas, temos um retrato muito bem pintado do mundo em que estamos inseridos.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Adeus

Olho para dentro de mim e o que enxergo? Bondade. Foi esse o sentimento que mais aprendi com você ao longo de toda essa nossa caminhada juntos. O ser humano mais generoso que já vi, sempre disposto a tirar a roupa do próprio corpo em auxílio ao próximo. Você foi um homem bom. Mais do que isso, você foi um pai bom. A nossa relação foi sim um tanto conturbada, mas havia tanto amor envolvido, e nós sabíamos disso, nós dois. Eu posso não ter sido o filho que você quis que eu fosse, mas me tornei o homem que a vida quis que eu me tornasse graças a você. E olho para mim e o que vejo? Você. E fica tão difícil te dizer adeus. Fica difícil porque você pulsa aqui dentro. Porque trago mais de você do que eu podia supor. O nosso jeito rude de demonstrar afeto nos privou de dizer algumas palavras um ao outro, mas elas não eram necessárias. Eu sabia do seu amor por mim cada vez que você saía de casa pra me apanhar no Clube. Cada vez que, ainda criança, eu deitava no seu colo pra ouvir ursinho pimpão. A cada gesto seu eu consegui enxergar amor, bondade. E sei que você também sabia do meu amor por você. Se resta alguma dúvida, de onde quer que você esteja, olhe para mim, pra dentro de mim, meu sentimento por você é parte da minha anatomia.
A caminhada foi difícil, né pai? Mas eu sei que toda vez que você pensou em desistir, ao olhar pro lado você conseguia enxergar a sua família. Nós, mais do que quaisquer outras pessoas, amamos muito você. Você soube, à sua maneira, construir uma história de amor. E ela é tão linda pai. Falem o que falar, ficamos juntos até o fim. E digam o que disserem, eu sei que ainda não é o fim. Ao apertar pela última vez sua mão, fizemos um acordo, sem palavras, como fizemos sempre. Um acordo de nos encontrarmos ainda . A saudade vai machucar pai. Machucar com uma intensidade como nunca nada me machucou. E quando ela machucar, eu vou olhar pra dentro de mim e te enxergar ali. Ningúem se vai enquanto houver alguém que queria lembrá-los. É dessa forma que eu vou te manter vivo. Você viverá em mim, até o último dia da minha existência, e nesse dia, apertarei a sua mão novamente, como da última vez, dessa vez pra continuarmos essa linda história de amor (sim,de amor) que começamos.
Eu te amo, pai.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Anoitecer

Sempre vem ao entardecer, esse sentimento que aperta e sufoca vem sempre ao entardecer. Conseqüências de uma alma fragilizada, de uma existência sensível. E justo comigo que vejo beleza nas coisas mais simples, como em passear pela rua, abrir a porta de casa, me achar deitado numa rede, percorrer as páginas de um bom livro. Parece que toda essa existência de partículas de felicidade encontradas no mais rotineiro movimento de repente se encontra ameaçada por um simples entardecer. Talvez entristecer ao anoitecer também seja belo. Talvez aí também haja aquela alegria das coisas simples. Quem sabe entristecer ao anoitecer seja justamente ser feliz, sentindo a vida pulsar nos mais distintos momentos.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Receita

De repente você sente que está inspirado. Certamente influência das leituras que anda fazendo. E pensa que pode continuar aquela história que começou e que nunca conseguiu continuar por achar seu texto por demais pretensioso. De repente você se sente capaz. Se não capaz, pelo menos sente que pode esboçar alguma coisa e ver no que vai dar. Tenta encher-se de algo que não tem nome, ou que alguns diriam ser inspiração, outros talento, outros sabe-se lá o que, e despeja na folha branca toneladas de sensações adormecidas e possíveis. Seria isso ou há algo mais? Haveria algum segredo, desses que as mães passam para as filhas de geração em geração? Há alguma receita a ser seguida? Ou é apenas isso, palavras e mais palavras sobre espaços vazios?

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Tudo se confunde

Não. Escrever não é fácil. Pode ser qualquer coisa, menos fácil. E acredito que quanto mais o tempo vai passando, mais difícil vai ficando. Já agora não sei como continuar. Não sei se coloco uma vírgula, não sei se um ponto, não sei se começo tudo de novo, não sei se desisto de vez e apago a luz. Escrever é como a vida. A vida também não é fácil. Pode ser qualquer coisa, menos fácil. E acredito que quanto mais o tempo vai passando, mais difícil vai ficando. Já agora não sei como continuar. De um lado há tudo o que já foi escrito. De outro lado há tudo o que ainda há por escrever. E tudo se confunde. Não sei se começo de novo o texto ou a vida. Já não sei mais do que falo. Viver e escrever é negócio muito perigoso, já dizia mais ou menos assim o poeta sertanejo. Não é fácil, e se não é fácil, porque é que eu insisto tanto em continuar tentando ao invés de apagar de vez a luz?