segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A Igreja do Diabo e Outros Contos - Machado de Assis.


O homem que morre sem ler Machado de Assis morre duas vezes. Machado é um autor que não canso de reler. E a cada releitura algo novo surge. Nessa minha releitura de A Igreja do Diabo e Outros Contos, que traz alguns dos contos de Histórias Sem Data (1884), Machado me mostra porque é um dos meus escritores preferidos. Seu olhar irônico e cruel sobre a sociedade é ainda mais fascinante nos contos do que nos romances. Pela sua extensão mais breve, temos nos contos de Machado maior lirismo, e seu humor peculiar me parece melhor explorado. Através de estórias breves as máscaras humanas são reveladas, e Machado traz aquilo de mais podre que o homem guarda. Crítico sutil do homem e da sociedade, nosso mestre da literatura soube fazer com maestria o que poucos conseguem: denunciar com estilo. Com muito estilo.

domingo, 17 de outubro de 2010

Outra Volta do Parafuso - Henry James.


Para os que gostam de um romance que mistura terror e suspense, Outra Volta do Parafuso, de Henry James é um prato cheio parar se deliciar. A escrita ágil de Henry James é digna de mérito, pois prende até um leitor desinteressado por esse tipo de estória: eu, por exemplo. Uma jovem preceptora aceita a proposta de cuidar de duas crianças em uma casa em que dois fantasmas aparecem para ela. A escrita de James faz com que o jogo entre realidade e imaginação mantenha o leitor atento e cúmplice. A ambigüidade é muito bem trabalhada, criando um clima de incertezas, de desconfianças, de dúvidas. Por se tratar de um romance de suspense não irei eu estragar o final, nem o meio, nem mesmo o começo, pois ele todo é suspense do começo ao fim. Aos que se sentirem estimulados, boa leitura.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

São Bernardo - Graciliano Ramos


É prática recorrente na literatura alguém contar suas memórias para tentar convencer-se de alguma coisa. Os exemplos são vários. Podemos citar Riobaldo de Grande Sertão: Veredas, que conta sua história na tentativa de entender se houve ou não o tal pacto com o diabo. Exemplo mais famoso em nossa literatura, Bentinho, nosso Dom Casmurro, tenta convencer a si mesmo da traição de Capitu, e narra suas memórias com um enredo perigosíssimo, e espera no leitor um cúmplice que concorde com seu ponto de vista. Mas para mim, nenhuma memória se compara as de Paulo Honório, de S. Bernardo. Segundo romance de Graciliano Ramos, S. Bernardo narra a vida no campo sob o prisma do dominador. É sob o olhar de um homem rude, grosseiro, impetuoso e por vezes malvado que nos chega a narrativa. Depois de acontecimentos que o marcam profundamente, Paulo Honório decide escrever um livro. A princípio tenciona fazê-lo em grupo. Frustrada essa tentativa decide ele mesmo, homem sem estudo, compor as suas memórias e deixá-las impressas no papel. O resultado é uma narrativa em que a língua falada se mistura à língua escrita de maneira deliciosa, numa prosa que traz aquilo de mais universal que existe na literatura: a condição do ser humano. Paulo Honório batalha a vida inteira para conquistar e manter a posição social almejada, e o saldo dessa luta é lindamente descrito no último capítulo do livro. A condição de Paulo ultrapassa os limites do nordeste brasileiro, pois suas memórias, além da descrição da vida no campo, é a descrição de vidas. De vidas simples com toda sua complexidade. Paulo Honório recorre à pena para convencer-se de que tudo o que fez valeu a pena. Acredito que S. Bernardo seja a memória mais bem escrita que já li. Se não for, pelo menos é, sem dúvida, a que mais me tocou.

sábado, 9 de outubro de 2010

O falecido Mattia Pascal - Luigi Pirandello


O homem é aquilo que ele de fato quer ser? Será que no fundo não passamos de um conjunto de convenções sociais, culturais, políticas e religiosas? É essa questão, a da identidade, que aparece no romance O falecido Mattia Pascal, de Luigi Pirandello. Mas além da questão da identidade, o romance mostra quão utópica pode ser a liberdade a que tanto aspiramos. Mattia é um homem que se vê levado pelas circunstâncias a viver uma vida que o angustia tanto a ponto de fazê-lo fugir de sua esposa e sogra. Durante sua fuga, alguém em sua pequena cidade morre, e na volta, a caminho de casa, Mattia descobre que o corpo identificado como morto é o seu. Diante da possibilidade de ser outra pessoa, Mattia então se aventura por novos horizontes com seu novo eu, e é a partir daí que o conflito da identidade começa a nascer. Quem ele é agora? De repente nosso personagem descobre que não pode ser o homem que gostaria de ser se não obedece a certas “regras” sociais. A felicidade a que tanto aspira se vê comprometida por não fazer parte da sociedade, afinal, ele está morto legalmente. Com um texto em que a ironia se faz sempre presente, Luigi Pirandello nos faz pensar no papel do homem na sociedade, em sua liberdade e até na própria vida. O romance mostra as máscaras que devemos vestir se queremos fazer parte do mundo. Ganhador do Nobel de literatura, Pirandello é um dos autores indispensáveis pra quem pretende entender um pouco das máscaras que levamos enquanto vivemos. Vistamos as nossas.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A metamorfose - Franz Kafka


O que me fascina na literatura são os mundos possíveis que ela é capaz de criar. Eu disse possíveis? Dormir humano e acordar inseto, sabemos, é algo que na vidinha nossa de cada dia não cabe. Na literatura cabe. Reformulemos então a frase. O que me fascina na literatura são os mundos (im)possíveis que ela é capaz de criar. A Metamorfose, de Franz Kafka, talvez seja o exemplo mais apropriado. Em uma narrativa que prende o leitor desde a primeira frase, a estória do homem que se transforma em um inseto fascina por sua estranheza. É uma estória que incomoda, que perturba. Gregor Samsa um dia se descobre inseto, e longe de desesperar-se, trata aquilo como se fosse um sintoma de uma doença qualquer, como ter apanhado uma gripe, por exemplo. No entanto, pelo menos pra mim, a genialidade desta obra está em como mostrar uma realidade possível e existente através de um fato absurdo e inconcebível no nosso universo. A metamorfose de Gregor acarreta mudanças não apenas para ele em sua condição física. Todos ao seu redor se metamorfoseiam com ele. Foi preciso que Gregor se transformasse pra que a família, antes acomodada e sustentada por ele, passasse também por um processo de transformação. Mais do que a estória de um homem que acorda inseto, a novela de Kafka nos mostra como somos transformados pelo que nos rodeia, pelo que nos atinge. Adentrar por esses mundos por vezes obscuros que a literatura é capaz de criar nos ajuda a entender melhor a nossa condição. E se somos transformados pelo que nos rodeia, que a literatura seja capaz de proporcionar as metamorfoses de que necessitamos.

sábado, 25 de setembro de 2010

Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley.


Diferente do que sempre faço, ao invés de escrever uma resenha sobre o livro que acabo de ler, dessa vez eu comentarei algo que minha última leitura suscitou em meus modestos pensamentos. Depois de ler Laranja Mecânica e 1984, estava faltando o romance que junto com os outros dois citados fecha a santíssima trindade da literatura de ficção científica: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. O livro é bom. E dele direi apenas isso. O assunto que me faz escrever, no entanto, é a diversidade de questões que a obra levanta a medida que avançamos na leitura. Temos descrita uma sociedade estabilizada, em que homens e mulheres são concebidos em série e para um determinado fim. O que para mim pareceu assustador é que não estamos tão longe disso. Há algum tempo, as humanidades foram tendo cada vez menos espaço nos currículos escolares. O que isso significa? Que a música, a literatura, a arte de maneira geral teve que ceder espaço para disciplinas que visam formar profissionais qualificados para determinados tipos de mão-de-obra. Resumo da ópera? Um estudante de medicina, por exemplo, não precisa mais ler a Ilíada ou Shakespeare, ou Machado de Assis (para isso os cursinhos imprimem resumos e mais resumos), não precisa mais descobrir suas aptidões artísticas, que desenvolveriam um lado mais humano, não precisam apreciar um Picasso, nem se encantar com os poemas de Neruda, nem ouvir uma sinfonia de Beethoven. Um estudante de medicina precisa unicamente cortar, costurar e receitar. Não estou desmerecendo o trabalho dos médicos, longe de mim, que respeito todas as profissões. O que quero dizer é que caminhamos rumo a uma sociedade tão cruel em que perder um ano da vida por não ter passado no vestibular parece algo sacrílego, quando na verdade pode ser saudável. Não existe uma idade pra se ingressar em uma profissão, mas o tempo todo somos cobrados e pressionados a passar o quanto antes em um vestibular, em cursar uma faculdade no menor tempo possível, e a pegar o diploma e morrer trabalhando, se a aposentadoria não chegar antes. Estamos sendo criados, como os personagens do livro, para desempenhar um papel puramente político e econômico na sociedade, e ponto final. Carpe diem? Ora, vivemos em um mundo em que aproveitar o dia é ter trabalhado e conseguido cumprir as metas pra poder comprar aquele televisor, e mais aquela roupa, e mais aquele telefone novo. Shakespeare já não está cabendo no nosso mundo. Machado tem se tornado uma voz distante no tempo. Viver é estar formado aos vinte e poucos anos, desempenhando a função que nos foi delegada. E de preferência nunca estar sozinho, pois a solidão nos faz descobrir quem realmente somos. Não pensemos em nada, não pensemos na vida, nem na morte, nem na arte, nem façamos grandes questionamentos... Aceitemos tudo e façamos parte desse mundo, desse admirável mundo novo.

domingo, 19 de setembro de 2010

Macunaíma - Mário de Andrade


Uma verdadeira revolução na linguagem literária, Macunaíma, de Mário de Andrade, é desses livros deliciosos de ler. Desses que se você estiver lendo no ônibus vai passar vergonha, porque não irá conseguir conter o riso diante dos desconhecidos que certamente irão te olhar como se você fosse um louco. A estória do herói sem nenhum caráter é povoada por mitos indígenas que fazem parte do folclore brasileiro, e todos eles são divertidíssimos. Além desses mitos que já existiam e que graças ao produto de sua pesquisa o escritor conseguiu reuni-los na sua rapsódia, há também os mitos criados pelo escritor. Mário acrescenta aos mitos folclóricos da cultura brasileira os seus próprios, sempre com muito humor e por vezes de maneira irônica. Um texto que continua guardando seu frescor moderno. Uma leitura prazerosa e inovadora, onde se mesclam o brasileiro falado e o português escrito, num jogo interessantíssimo com as palavras. A meu ver, o verdadeiro grito de independência que o Brasil deu. Aqui o nacionalismo é presente sem ser xenófobo, consume apenas o que há de bom na arte estrangeira. No seu movimento antropofágico, a nossa arte conseguiu finalmente libertar-se dos modelos estrangeiros estabelecidos (já que a arte não se prende a modelos e formas), e se apresenta como uma arte vanguardista, que dialoga com o que há de mais interessante no mundo da arte. Macunaíma é uma brincadeira séria, um jogo difícil em que autor e leitor vão além da cumplicidade, vão experimentando juntos novas possibilidades na arte de narrar.

domingo, 12 de setembro de 2010

El amor en los tiempos del cólera - Gabriel García Márquez.


Um homem espera pelo grande amor da sua vida durante meio século. Durante meio século ele deseja que seu rival, o esposo de sua amada, morra, para que ele enfim possa viver a felicidade ao lado da eleita do seu coração. Isso nos soa como alguma obra da fase romântica, desses amores impossíveis que encontramos na literatura de José de Alencar ou de Bernardo Guimarães. No entanto, engana-se quem assim julga. O enredo descrito trata-se nada mais nada menos do que mais uma estória do Nobel Gabriel García Márquez. El amor en los tiempos del cólera é um romance com um argumento desses mais açucarados que a literatura pode conceber. Para quem conhece a escrita de Gabriel desconfia de que eu esteja falando dele mesmo. Mas é exatamente a escrita usada pelo escritor que faz desse argumento açucarado uma estória complexa e humana. No primeiro capítulo já ficamos a par de acontecimentos que, seguindo a linha do romance tradicional, seriam deixados para o final. Aqui não. O começo do livro traz Fermina Daza casada com Juvenal Urbino, mas algumas páginas depois se descobre que seu amor do passado foi Florentino Ariza e a partir disso o escritor nos presenteia com uma escrita capaz de colocar ordem no meio dessa desordem aparente. Como ele faz em Crónica de una muerte anunciada, em que já desde a primeira frase do livro anuncia que Nasar vai morrer, aqui também temos informações que antecipam o desenrolar da trama. O autor joga com o tempo, trabalhando-o de maneira não linear, e à medida que a estória avança, ele vai construindo sua fábula. Só alguém com uma escrita muito poderosa é capaz de tornar um argumento tão açucarado em um dos livros mais bem escritos da literatura latino americana. Para quem tiver tempo e disposição de percorrer as quase quinhentas páginas, fica a sugestão. Uma leitura encantadora. Uma visão peculiar do amor e seus sintomas.

domingo, 29 de agosto de 2010

O dialogismo na literatura.


Para mim é difícil escrever sobre poesia. Confesso que não é o meu forte. Mas não podia deixar de comentar essa leitura mais que prazerosa de Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Comecemos então por partes. Primeiramente, deixemos claro que romance, dentro da poesia, se trata originalmente de uma espécie de poema épico popular, cantado, acompanhado com música. O gênero ao longo do tempo sofreu modificações (como qualquer gênero literário) e hoje podemos concebê-lo como um tipo de poema narrativo, tal qual a literatura de cordel, que por sinal tem forte influência do romance na sua composição. Não é objetivo desse texto remontar a origem da forma poética em questão, nem acompanhar a sua evolução ao longo da história da literatura. O que pretendo é apenas dar uma pincelada pra que se entenda o que chamamos romance dentro da poesia. Nesse sentido, quando se tem vários poemas narrativos que versam sobre um determinado tema, a compilação desses poemas recebe o nome de Romanceiro. Dito isso, posso começar a escrever sobre o que me interessa.
Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, como o próprio nome diz, trata da Inconfidência Mineira. Os personagens que fizeram história são motivo de composições belíssimas para nossa poetisa. Mas não só eles. Tudo é motivo para Cecília poetizar: o desejo de liberdade, a ambição, a violência, a esperança, o medo. Através de seus versos Cecília nos mostra um lado da Inconfidência que não está nos livros de História do Brasil. Seus versos especulam sobre uma diversidade de sentimentos, sejam eles dos heróis, sejam eles dos vilões. Há poema para todos. Não ficaram de fora nem os cavalos que participaram da Inconfidência. Seu olhar se detém sobre tudo, sobre todos, com grande variedade de formas em cada romance. E no meio dessa variedade de quase cem romances fica difícil escolher um preferido. Se eu tivesse que me arriscar a escolher um, creio que seria o poema que versa sobre a morte de Cláudio Manoel da Costa. Todo o romance guarda o mistério que gira em torno do nosso poeta árcade. Fosse eu romancista (agora no sentido da prosa de ficção), e faria com Cláudio Manoel da Costa o que fez Saramago com Ricardo Reis. Na verdade, não estou sendo tão original assim, afinal Silviano Santiago já ficcionalizou sobre a morte do nosso poeta inconfidente. Acontece que ao ler o poema de Cecília sobre a misteriosa morte de Cláudio Manoel da Costa, me despertou o desejo de ler (ou de escrever?) uma estória que tivesse como pano de fundo Cláudio vivo depois que todos o julgassem morto. E o que é literatura senão isso? Um livro é sempre uma resposta a outro livro, já dizia Umberto Eco em O Nome da Rosa. Esse dialogismo mantém viva a literatura. E é esse dialogismo que levou Cecília a escrever o seu Romanceiro. Uma composição que vai muito além da Inconfidência Mineira. Uma composição que nos deixa marcas. Poemas que segundo Ana Maria Machado, ficam pra sempre. Aí reside a boa literatura.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Um mundo de cores na literatura do século XIX.


A arte imita a vida ou a vida imita a arte? No caso de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, a arte imita a vida de uma maneira envolvente e sombria. O escritor nos brinda com um mundo miserável em que as leis da natureza ajudam a compor uma das estórias mais fascinantes da literatura brasileira. A estória de uma habitação coletiva traz consigo um mundo cercado de pobreza, de oportunistas, de ambiciosos, de aproveitadores, e traz a tona muitas das misérias humanas. Em uma época em que não havia ainda o cinema e nem a televisão, a leitura de O Cortiço nos brinda com uma visão muito interessante do coletivo. Ao ler o romance parece que estamos diante de uma câmera que da conta de captar o cortiço e seus personagens de um ângulo que tudo mostra, mas que ao mesmo tempo, escolhe alguns personagens e algumas situações para particularizar. É assim a escrita de Aluísio Azevedo nesta obra. Ao mesmo tempo em que da conta do coletivo, consegue particularizar aquilo que é mais substancial pra composição do romance. O resultado é essa sensação de estarmos diante de uma tela de cinema, e de nos deixarmos levar pela câmera, para ver ora o cortiço e toda sua riqueza de personagens e situações, e ora a vida particular desses seres miseráveis, levados pelo instinto humano, rebaixados à condição de animais que agem segundo instintos que lhe são impostos pelo meio. Uma estória sombria. Um mundo sombrio. Sombrio e real. O Cortiço, escrito no século XIX, parece uma quadro que Aluísio pintou. A pintura de um quadro é diferente de uma fotografia. A pintura é subjetiva. E nesse quadro pintado por Aluísio, temos pinceladas que querem retratar da maneira mais real possível o mundo hostil no qual o homem está inserido, mas que, exatamente por ser arte, vêm carregadas de uma subjetividade que mostra o mundo real sob novas cores. E neste quadro sombrio que Aluísio Azevedo soube pintar de maneira esplêndida, se pode ver cores que contrastam com esse ambiente escuro e de podridão. Eu as vejo claramente quando leio. As vejo nas cores vivas da saia de Rita Baiana. As vejo nas cores dos movimentos ligeiros de Firmo. As vejo na palidez do Albino. As vejo no sangue que sai pela primeira vez de Pombinha. Tudo isso contrasta com esse mundo sombrio que ele soube pintar. E você, que cores é capaz de enxergar na leitura de O Cortiço?