domingo, 19 de dezembro de 2010

O Assassinato E Outras Histórias - Anton Tchekhov.


É difícil para mim escrever sobre o Tchekhov. Este foi o meu primeiro contato com sua literatura, e quem já leu Anton Tchekhov sabe da densidade de sua escrita. Não gosto de comparar escritores, pois cada escritor (bem como cada obra) é único, tem seu estilo, sua escrita, mas confesso que ao ler o escritor russo, o nosso brasileiríssimo Machado de Assis me vinha muito à mente. Assim como Machado, encontramos na obra de Tchekhov (pelo menos na antologia de contos que li) uma crítica muito bem escrita da sociedade. Tchekhov consegue retratar o quadro da Rússia da época e fazer daquelas estórias, passadas em pequenos povoados, estórias universais por seu caráter humano, como fez Machado quando retratou a sociedade do Rio de Janeiro na época em que escreveu. Tchekhov não é o fotógrafo que registra uma foto de um determinado momento. Tchekhov é pintor, que com suas pinceladas nos faz enxergar o que há de humano por trás da imagem que nos mostra. Por vezes irônico, por vezes cruel, mas sempre com uma escrita fascinante, o escritor russo vai compondo um quadro maior do que o que aparentemente ele quer mostrar. Não há como o leitor ficar apenas na superfície. Em Tchekhov se faz necessário mergulhar mais profundamente, esgotar o texto e suas possibilidades de leitura. Como nos contos de Machado, a minha leitura dos contos de Tchekhov me fez lembrar que não importa o lugar onde se esteja, o ser humano sempre traz dentro de si os sentimentos mais assombrosos que podemos imaginar. É universal, seja no Brasil, seja na Rússia, seja em qualquer outro lugar do planeta. A natureza humana é assustadora.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Odisseia - Homero


Lembro-me da primeira vez que li a Ilíada e a Odisseia de Homero em 2005. Fiquei extasiado com a dimensão daquelas epopéias, de modo que ficou difícil apontar uma das duas como a minha preferida. Passados cinco anos, eis que me debruço novamente sobre elas, e ao invés de sanar a minha dúvida e escolher uma das duas, a confusão apenas aumenta. Em julho reli a Ilíada. Agora, em novembro, foi a vez da releitura da Odisseia. Ítalo Calvino afirma que um clássico é um livro que, mesmo passando muito tempo desde sua escrita, ainda tem algo a nos dizer, e que sempre precisa ser relido. O fato dessas duas epopéias de Homero serem clássicos acredito que seja inquestionável. Fonte de inspiração para a literatura ocidental, as duas epopéias inspiram escritores até os dias de hoje. A Ilíada, grosseiramente falando, trata de um relato de guerra em que o orgulho é trama central e traz proporções mais que humanas ao destino de deuses e guerreiros. A Odisseia, por sua vez, é mais romântica, se é que a podemos classificá-la dessa forma. As aventuras de Odisseu, seu amor por Penélope, o desejo de voltar para casa, para os braços da esposa dileta, tudo isso cantado de forma grandiosa e com técnicas narrativas que prendem o leitor desde a primeira página. A cronologia não se dá da maneira linear. Começamos a epopéia com Telêmaco indo em busca de informações sobre seu pai, ficamos sabendo de acontecimentos ocorridos depois da queda de Troia. Depois o foco narrativo nos leva a contemplar Odisseu, e é o próprio personagem quem vai narrar suas desventuras e aventuras pelo mundo antes de se encontrar na terra dos Feácios, prestes a voltar para casa. Depois voltamos ao presente dos acontecimentos e acompanhamos ao lado dos personagens principais o desfecho da aventura. A epopéia homérica é tão grandiosa, que com o advento do modernismo na literatura, ela não foi deixada de lado, sendo retomada por um dos maiores escritores da literatura, James Joyce, com seu grandioso Ulisses. Os clássicos homéricos, marcos na literatura ocidental, são exemplos de que, como diz Calvino, um clássico nunca terminou de dizer o que tinha para dizer. Elejamos nossos clássicos (já que não podemos ler todos) e boa leitura a todos nós.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

História do Cerco de Lisboa - José Saramago.


O limite que separa escrita de ficção da escrita que se afirma como verdade é tão sutil que às vezes fica difícil dizer quando se trata de uma e quando se trata de outra. Sabemos, por exemplo, que um romance é um romance porque olhamos nos dados de catalogação do livro, ou porque vem escrito na capa embaixo do título, ou porque conhecemos o autor, etc. Há livros, no entanto, que sem termos um conhecimento prévio de sua classificação, poderiam nos gerar as mais desconfortáveis dúvidas. Nesse sentido, há muito livros de História que poderiam ser lidos como ficção. Há inclusive uma tendência moderna de se contar a História nos moldes de uma narrativa tradicional. E há muita escrita de ficção que poderia ser lida e entendida como História (sim, leia-se História com H maiúsculo). Poderia citar vários exemplos. Ao invés disso, se agucei a curiosidade de alguém que me lê, sugiro que procure na livraria (ou na biblioteca) algo classificado como romance histórico, entenderão melhor o que exponho. Essa problemática da escrita que se afirma como ficção e da escrita que se afirma como verdade não é algo novo. Há diversos textos acadêmicos que tentam dar conta do recado. Ou se quisermos ser mais específicos, pensemos em muitos textos que a literatura acolheu e que não são ficção. Basta pensarmos nos primeiros séculos de Brasil, em que chamamos literatura a carta de Pêro Vaz de Caminha, e uma variedade sem fim de documentos que mais interessam à historiografia do que propriamente à literatura, isso sem falar da prosa doutrinária. Isso só nos mostra quão tênue é a linha que separa ficção de realidade. E é essa linha tênue que da origem a um dos romances mais inteligentes e bem escritos da literatura: História do Cerco de Lisboa. Nesse romance, Saramago joga com a arte do fazer literário quando nos presenteia com um personagem que resolve alterar a escrita que se afirma como verdade. Raimundo Silva, um revisor de uma editora, um dia em que está terminando de revisar um livro que conta a História do cerco de Lisboa, sem explicações lógicas resolve meter um não em lugar de um sim. O resultado? Uma História diferente. A partir daí, o escritor português nos convida a adentrar em um mundo onde ficção e realidade se misturam e se completam. Típico de Saramago, o livro levanta questões interessantíssimas e perturbadoras. E se aquilo que concebemos como verdade não for a verdade? E o que vem a ser de fato verdade? E como seria o mundo hoje se a História tivesse sido diferente? A literatura de Saramago, que não está aí para responder questões, mas para levantá-las, nos leva a pensar no poder da escrita, tanto da que se quer verdadeira, como da de ficção, e acompanhamos, ao lado de Raimundo Silva, o confeccionar dessas duas escritas. Raimundo (por motivos que não coloco aqui para não estragar a leitura de quem ainda não se deliciou nas páginas do romance) se atreve a criar um romance de ficção, e ao fazê-lo, acaba criando uma nova História. Inteligente, ousado, mágico e perturbador (e por que não dizer lindo também?), o romance afirma (no meu caso reafirma) que Saramago fez jus ao Nobel de Literatura que ganhou. História do Cerco de Lisboa não é meu romance preferido de Saramago, mas é, a meu ver, um dos textos mais inteligentes da Literatura.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A Igreja do Diabo e Outros Contos - Machado de Assis.


O homem que morre sem ler Machado de Assis morre duas vezes. Machado é um autor que não canso de reler. E a cada releitura algo novo surge. Nessa minha releitura de A Igreja do Diabo e Outros Contos, que traz alguns dos contos de Histórias Sem Data (1884), Machado me mostra porque é um dos meus escritores preferidos. Seu olhar irônico e cruel sobre a sociedade é ainda mais fascinante nos contos do que nos romances. Pela sua extensão mais breve, temos nos contos de Machado maior lirismo, e seu humor peculiar me parece melhor explorado. Através de estórias breves as máscaras humanas são reveladas, e Machado traz aquilo de mais podre que o homem guarda. Crítico sutil do homem e da sociedade, nosso mestre da literatura soube fazer com maestria o que poucos conseguem: denunciar com estilo. Com muito estilo.

domingo, 17 de outubro de 2010

Outra Volta do Parafuso - Henry James.


Para os que gostam de um romance que mistura terror e suspense, Outra Volta do Parafuso, de Henry James é um prato cheio parar se deliciar. A escrita ágil de Henry James é digna de mérito, pois prende até um leitor desinteressado por esse tipo de estória: eu, por exemplo. Uma jovem preceptora aceita a proposta de cuidar de duas crianças em uma casa em que dois fantasmas aparecem para ela. A escrita de James faz com que o jogo entre realidade e imaginação mantenha o leitor atento e cúmplice. A ambigüidade é muito bem trabalhada, criando um clima de incertezas, de desconfianças, de dúvidas. Por se tratar de um romance de suspense não irei eu estragar o final, nem o meio, nem mesmo o começo, pois ele todo é suspense do começo ao fim. Aos que se sentirem estimulados, boa leitura.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

São Bernardo - Graciliano Ramos


É prática recorrente na literatura alguém contar suas memórias para tentar convencer-se de alguma coisa. Os exemplos são vários. Podemos citar Riobaldo de Grande Sertão: Veredas, que conta sua história na tentativa de entender se houve ou não o tal pacto com o diabo. Exemplo mais famoso em nossa literatura, Bentinho, nosso Dom Casmurro, tenta convencer a si mesmo da traição de Capitu, e narra suas memórias com um enredo perigosíssimo, e espera no leitor um cúmplice que concorde com seu ponto de vista. Mas para mim, nenhuma memória se compara as de Paulo Honório, de S. Bernardo. Segundo romance de Graciliano Ramos, S. Bernardo narra a vida no campo sob o prisma do dominador. É sob o olhar de um homem rude, grosseiro, impetuoso e por vezes malvado que nos chega a narrativa. Depois de acontecimentos que o marcam profundamente, Paulo Honório decide escrever um livro. A princípio tenciona fazê-lo em grupo. Frustrada essa tentativa decide ele mesmo, homem sem estudo, compor as suas memórias e deixá-las impressas no papel. O resultado é uma narrativa em que a língua falada se mistura à língua escrita de maneira deliciosa, numa prosa que traz aquilo de mais universal que existe na literatura: a condição do ser humano. Paulo Honório batalha a vida inteira para conquistar e manter a posição social almejada, e o saldo dessa luta é lindamente descrito no último capítulo do livro. A condição de Paulo ultrapassa os limites do nordeste brasileiro, pois suas memórias, além da descrição da vida no campo, é a descrição de vidas. De vidas simples com toda sua complexidade. Paulo Honório recorre à pena para convencer-se de que tudo o que fez valeu a pena. Acredito que S. Bernardo seja a memória mais bem escrita que já li. Se não for, pelo menos é, sem dúvida, a que mais me tocou.

sábado, 9 de outubro de 2010

O falecido Mattia Pascal - Luigi Pirandello


O homem é aquilo que ele de fato quer ser? Será que no fundo não passamos de um conjunto de convenções sociais, culturais, políticas e religiosas? É essa questão, a da identidade, que aparece no romance O falecido Mattia Pascal, de Luigi Pirandello. Mas além da questão da identidade, o romance mostra quão utópica pode ser a liberdade a que tanto aspiramos. Mattia é um homem que se vê levado pelas circunstâncias a viver uma vida que o angustia tanto a ponto de fazê-lo fugir de sua esposa e sogra. Durante sua fuga, alguém em sua pequena cidade morre, e na volta, a caminho de casa, Mattia descobre que o corpo identificado como morto é o seu. Diante da possibilidade de ser outra pessoa, Mattia então se aventura por novos horizontes com seu novo eu, e é a partir daí que o conflito da identidade começa a nascer. Quem ele é agora? De repente nosso personagem descobre que não pode ser o homem que gostaria de ser se não obedece a certas “regras” sociais. A felicidade a que tanto aspira se vê comprometida por não fazer parte da sociedade, afinal, ele está morto legalmente. Com um texto em que a ironia se faz sempre presente, Luigi Pirandello nos faz pensar no papel do homem na sociedade, em sua liberdade e até na própria vida. O romance mostra as máscaras que devemos vestir se queremos fazer parte do mundo. Ganhador do Nobel de literatura, Pirandello é um dos autores indispensáveis pra quem pretende entender um pouco das máscaras que levamos enquanto vivemos. Vistamos as nossas.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A metamorfose - Franz Kafka


O que me fascina na literatura são os mundos possíveis que ela é capaz de criar. Eu disse possíveis? Dormir humano e acordar inseto, sabemos, é algo que na vidinha nossa de cada dia não cabe. Na literatura cabe. Reformulemos então a frase. O que me fascina na literatura são os mundos (im)possíveis que ela é capaz de criar. A Metamorfose, de Franz Kafka, talvez seja o exemplo mais apropriado. Em uma narrativa que prende o leitor desde a primeira frase, a estória do homem que se transforma em um inseto fascina por sua estranheza. É uma estória que incomoda, que perturba. Gregor Samsa um dia se descobre inseto, e longe de desesperar-se, trata aquilo como se fosse um sintoma de uma doença qualquer, como ter apanhado uma gripe, por exemplo. No entanto, pelo menos pra mim, a genialidade desta obra está em como mostrar uma realidade possível e existente através de um fato absurdo e inconcebível no nosso universo. A metamorfose de Gregor acarreta mudanças não apenas para ele em sua condição física. Todos ao seu redor se metamorfoseiam com ele. Foi preciso que Gregor se transformasse pra que a família, antes acomodada e sustentada por ele, passasse também por um processo de transformação. Mais do que a estória de um homem que acorda inseto, a novela de Kafka nos mostra como somos transformados pelo que nos rodeia, pelo que nos atinge. Adentrar por esses mundos por vezes obscuros que a literatura é capaz de criar nos ajuda a entender melhor a nossa condição. E se somos transformados pelo que nos rodeia, que a literatura seja capaz de proporcionar as metamorfoses de que necessitamos.

sábado, 25 de setembro de 2010

Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley.


Diferente do que sempre faço, ao invés de escrever uma resenha sobre o livro que acabo de ler, dessa vez eu comentarei algo que minha última leitura suscitou em meus modestos pensamentos. Depois de ler Laranja Mecânica e 1984, estava faltando o romance que junto com os outros dois citados fecha a santíssima trindade da literatura de ficção científica: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. O livro é bom. E dele direi apenas isso. O assunto que me faz escrever, no entanto, é a diversidade de questões que a obra levanta a medida que avançamos na leitura. Temos descrita uma sociedade estabilizada, em que homens e mulheres são concebidos em série e para um determinado fim. O que para mim pareceu assustador é que não estamos tão longe disso. Há algum tempo, as humanidades foram tendo cada vez menos espaço nos currículos escolares. O que isso significa? Que a música, a literatura, a arte de maneira geral teve que ceder espaço para disciplinas que visam formar profissionais qualificados para determinados tipos de mão-de-obra. Resumo da ópera? Um estudante de medicina, por exemplo, não precisa mais ler a Ilíada ou Shakespeare, ou Machado de Assis (para isso os cursinhos imprimem resumos e mais resumos), não precisa mais descobrir suas aptidões artísticas, que desenvolveriam um lado mais humano, não precisam apreciar um Picasso, nem se encantar com os poemas de Neruda, nem ouvir uma sinfonia de Beethoven. Um estudante de medicina precisa unicamente cortar, costurar e receitar. Não estou desmerecendo o trabalho dos médicos, longe de mim, que respeito todas as profissões. O que quero dizer é que caminhamos rumo a uma sociedade tão cruel em que perder um ano da vida por não ter passado no vestibular parece algo sacrílego, quando na verdade pode ser saudável. Não existe uma idade pra se ingressar em uma profissão, mas o tempo todo somos cobrados e pressionados a passar o quanto antes em um vestibular, em cursar uma faculdade no menor tempo possível, e a pegar o diploma e morrer trabalhando, se a aposentadoria não chegar antes. Estamos sendo criados, como os personagens do livro, para desempenhar um papel puramente político e econômico na sociedade, e ponto final. Carpe diem? Ora, vivemos em um mundo em que aproveitar o dia é ter trabalhado e conseguido cumprir as metas pra poder comprar aquele televisor, e mais aquela roupa, e mais aquele telefone novo. Shakespeare já não está cabendo no nosso mundo. Machado tem se tornado uma voz distante no tempo. Viver é estar formado aos vinte e poucos anos, desempenhando a função que nos foi delegada. E de preferência nunca estar sozinho, pois a solidão nos faz descobrir quem realmente somos. Não pensemos em nada, não pensemos na vida, nem na morte, nem na arte, nem façamos grandes questionamentos... Aceitemos tudo e façamos parte desse mundo, desse admirável mundo novo.

domingo, 19 de setembro de 2010

Macunaíma - Mário de Andrade


Uma verdadeira revolução na linguagem literária, Macunaíma, de Mário de Andrade, é desses livros deliciosos de ler. Desses que se você estiver lendo no ônibus vai passar vergonha, porque não irá conseguir conter o riso diante dos desconhecidos que certamente irão te olhar como se você fosse um louco. A estória do herói sem nenhum caráter é povoada por mitos indígenas que fazem parte do folclore brasileiro, e todos eles são divertidíssimos. Além desses mitos que já existiam e que graças ao produto de sua pesquisa o escritor conseguiu reuni-los na sua rapsódia, há também os mitos criados pelo escritor. Mário acrescenta aos mitos folclóricos da cultura brasileira os seus próprios, sempre com muito humor e por vezes de maneira irônica. Um texto que continua guardando seu frescor moderno. Uma leitura prazerosa e inovadora, onde se mesclam o brasileiro falado e o português escrito, num jogo interessantíssimo com as palavras. A meu ver, o verdadeiro grito de independência que o Brasil deu. Aqui o nacionalismo é presente sem ser xenófobo, consume apenas o que há de bom na arte estrangeira. No seu movimento antropofágico, a nossa arte conseguiu finalmente libertar-se dos modelos estrangeiros estabelecidos (já que a arte não se prende a modelos e formas), e se apresenta como uma arte vanguardista, que dialoga com o que há de mais interessante no mundo da arte. Macunaíma é uma brincadeira séria, um jogo difícil em que autor e leitor vão além da cumplicidade, vão experimentando juntos novas possibilidades na arte de narrar.