sábado, 7 de agosto de 2010

Sangre como la mía


Sabe aquele livro que, estando você na rua, não vê a hora de voltar pra casa para lê-lo? Sangre como la mía, de Jorge Marchant Lazcano, um escritor chileno, é um desses livros. Não se trata de uma leitura fácil. O autor conta com a cumplicidade do leitor para compor sua narrativa. Em primeiro lugar porque se trata de uma narrativa interessantíssima do ponto de vista estético. Dois tempos convivem juntos dentro do romance, um passado que avança até o presente, e um presente que volta ao passado, tudo isso narrado por uma diversidade de vozes dentro da obra que permite a exposição de vários pontos de vistas distintos de uma mesma estória. Por sua estrutura, a narrativa exige um leitor atento, e mais do que atento, paciente. O tempo não se da de maneira linear, e dessa forma, o leitor salta no tempo, levado pelas vozes dos diversos narradores, e aos poucos vai construindo uma imagem mais ampla da estória que está sendo contada. Desde La ciudad y los perros, de Vargas Llosa, eu não lia algo tão interessante e inovador do ponto de vista do uso da linguagem dentro da literatura. E, diga-se de passagem, a literatura latino americana é mestra em fazê-lo. No entanto, eu poderia escrever parágrafos e mais parágrafos sobre a estrutura formal do romance de Lazcano, mas quero agora falar do argumento. Para os que gostam de uma boa estória, Sangre como la mía é um prato cheio para se lambuzar. Um romance comovente, doloroso, humano, universal. Não se trata apenas da estória de jovens homossexuais chilenos ao longo de várias décadas, em um determinado momento, em determinados lugares, vivendo determinadas situações. A estória vai além disso e nos mostra o vazio que habita o mundo dessas pessoas fragilizadas emocionalmente, querendo a todo custo provar algo, para os outros, para si mesmos, querendo buscar algo que não se sabe exatamente o que. Mais do que a condição homossexual, está presente na obra a condição humana e os sentimentos que agitam o interior do indivíduo. Os conflitos familiares, o comportamento social, tudo é muito bem trabalhado dentro da obra. E o mais gostoso na leitura é que não se trata de literatura militante, em defesa de algo. É literatura e ponto. Literatura no seu melhor estilo, resgatando aquilo de mais sublime que há na existência humana, trabalhado em uma linguagem cheia de pluralidade e inovação. Não é literatura escrita por um homossexual para um público homossexual. Trata-se de uma obra sensível, rica, grandiosa, para um leitor inteligente e amante da boa literatura. A notícia ruim? Não existe (ainda) tradução pro português. Aos que sabem ler em espanhol fica a indicação. Aos que não sabem, fiquem atentos, e quando se depararem com esse título na livraria: “Sangue como o meu”, agarrem o seu exemplar, e corram para casa pra começar a ler.

4 comentários:

david era uma vez... disse...

Bruno só posso pensar em ler esse livro depois de largar meu gardenal (não é piada) pois ele me faz perder a concentração....uma leitura dificil em outro idioma eu preciso de concentração plus!! Ainda bem que só faltam 3 meses pro maldito ir embora do meu cerebro!.
Mas eu achei muitissimo interessante e quero ler, pois a muito não leio um romance espano-americano!!
Beijos

david era uma vez... disse...

Interessante que na capa, os desenhos dos mocinhos se assemelham com James Dean e Marlon Brando....

Marcelo R. Rezende disse...

Como meu espanhol precisa só de alguns anos de prática, deixarei pra ler quando houver tradução.
Não gosto de livros que defendam demais uma causa. Tudo que, na litetura, tem um cunho político/militante, sai da linha da arte, ao meu ver.

Beijo Bru.

Cristiano Contreiras disse...

Interessante a abordagem do livro, você traz preciosidades pra seu espaço, meu caro Bruno. Parabéns pelo estilo e proposta do blog, vou te seguir e linkarei ao meu! até