
O limite que separa escrita de ficção da escrita que se afirma como verdade é tão sutil que às vezes fica difícil dizer quando se trata de uma e quando se trata de outra. Sabemos, por exemplo, que um romance é um romance porque olhamos nos dados de catalogação do livro, ou porque vem escrito na capa embaixo do título, ou porque conhecemos o autor, etc. Há livros, no entanto, que sem termos um conhecimento prévio de sua classificação, poderiam nos gerar as mais desconfortáveis dúvidas. Nesse sentido, há muito livros de História que poderiam ser lidos como ficção. Há inclusive uma tendência moderna de se contar a História nos moldes de uma narrativa tradicional. E há muita escrita de ficção que poderia ser lida e entendida como História (sim, leia-se História com H maiúsculo). Poderia citar vários exemplos. Ao invés disso, se agucei a curiosidade de alguém que me lê, sugiro que procure na livraria (ou na biblioteca) algo classificado como romance histórico, entenderão melhor o que exponho. Essa problemática da escrita que se afirma como ficção e da escrita que se afirma como verdade não é algo novo. Há diversos textos acadêmicos que tentam dar conta do recado. Ou se quisermos ser mais específicos, pensemos em muitos textos que a literatura acolheu e que não são ficção. Basta pensarmos nos primeiros séculos de Brasil, em que chamamos literatura a carta de Pêro Vaz de Caminha, e uma variedade sem fim de documentos que mais interessam à historiografia do que propriamente à literatura, isso sem falar da prosa doutrinária. Isso só nos mostra quão tênue é a linha que separa ficção de realidade. E é essa linha tênue que da origem a um dos romances mais inteligentes e bem escritos da literatura: História do Cerco de Lisboa. Nesse romance, Saramago joga com a arte do fazer literário quando nos presenteia com um personagem que resolve alterar a escrita que se afirma como verdade. Raimundo Silva, um revisor de uma editora, um dia em que está terminando de revisar um livro que conta a História do cerco de Lisboa, sem explicações lógicas resolve meter um não em lugar de um sim. O resultado? Uma História diferente. A partir daí, o escritor português nos convida a adentrar em um mundo onde ficção e realidade se misturam e se completam. Típico de Saramago, o livro levanta questões interessantíssimas e perturbadoras. E se aquilo que concebemos como verdade não for a verdade? E o que vem a ser de fato verdade? E como seria o mundo hoje se a História tivesse sido diferente? A literatura de Saramago, que não está aí para responder questões, mas para levantá-las, nos leva a pensar no poder da escrita, tanto da que se quer verdadeira, como da de ficção, e acompanhamos, ao lado de Raimundo Silva, o confeccionar dessas duas escritas. Raimundo (por motivos que não coloco aqui para não estragar a leitura de quem ainda não se deliciou nas páginas do romance) se atreve a criar um romance de ficção, e ao fazê-lo, acaba criando uma nova História. Inteligente, ousado, mágico e perturbador (e por que não dizer lindo também?), o romance afirma (no meu caso reafirma) que Saramago fez jus ao Nobel de Literatura que ganhou. História do Cerco de Lisboa não é meu romance preferido de Saramago, mas é, a meu ver, um dos textos mais inteligentes da Literatura.