
Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo. Essa frase de Ricardo Reis define esse interessante personagem que ganha vida nas bem escritas letras de Saramago. O Ano da Morte de Ricardo Reis é um romance ousado, que propõe um pacto ficcional interessantíssimo, em que criador e criatura se encontram em um mundo que só é possível no universo das palavras. Criador é Fernando Pessoa, Ricardo Reis é seu heterônimo, mas a maneira como Saramago brinca com essa sutileza faz com que ambos possam existir de maneira autêntica dentro do universo ficcional. Ricardo Reis, depois de seu exílio no Brasil, volta a Portugal, e ao encontrar um país marcado por conflitos internos e externos, se põe a apreciar o espetáculo do mundo. Na sua prosa poética, Saramago tece reflexões sobre política, sobre literatura, sobre o cotidiano, sobre a vida. Solitário, recebendo visitas ocasionais de Lídia, uma criada de um hotel, da menina Marcenda, por quem se apaixona, e de ninguém menos que Fernando Pessoa, Ricardo Reis reflete a condição do homem no mundo. Romance ao melhor estilo de Saramago.