
Pela quinta vez eu percorro as páginas do livro que ocupa o primeiro lugar no ranking dos livros de que mais gosto: Dom Casmurro, de Machado de Assis. Como muito já foi escrito sobre a estória de Bento Santiago e Capitolina, me proponho a escrever sobre por que alguém lê um mesmo livro pela quinta vez. Logo no início do livro, o narrador Bento Santiago justifica os motivos que o fazem por a pena na mão. Segundo Bentinho, a intenção em escrever o livro era unir as duas pontas de sua vida, o presente e o passado, já que todas suas tentativas para tal foram frustradas. Resumindo, Bento escreve para relembrar. E para relembrar também eu percorro uma vez mais as páginas do nosso solitário narrador. Ao avançar pelas páginas de Dom Casmurro, histórias minhas vão saindo das palavras lidas, imagens avivam-se em minha mente, como quando Bento vê reviverem em sua mente estórias e pessoas ao ler depois de moço o Panegírico de Santa Mônica. Não sei se me fiz entender. Explico-me. Ao ler Dom Casmurro pela quinta vez, as outras quatro leituras me vêm à mente. Lembro-me de quando ganhei o livro e da primeira vez que o li, ainda em Porto Alegre. Lembro-me também das duas leituras que fiz para disciplinas da faculdade, e pessoas esquecidas e abandonadas em algum lugar qualquer da minha mente reaparecem: professores, alunos, corredores, anfiteatros. Cada leitura de Dom Casmurro, além de ser mais uma leitura do livro que me fascina, é a leitura de mim, das partes da minha vida que gosto de reviver, de relembrar, partes da vida que tenho a intenção de unir. Não só de palavras estão feitos os livros, eles também são capazes de carregar e guardar consigo uma infinidade de sensações que provamos nas leituras. Quando pela sexta vez eu tornar a ler Dom Casmurro, me lembrarei das demais leituras, das situações em que cada uma delas foram feitas, e com Bento Santiago, não apenas reviverei seus dilemas e sua estória, estarei também eu unindo as pontas da minha vida.