sábado, 12 de abril de 2008

Folha em branco


Sinto como que uma necessidade em escrever. Não porque me tenha passado algo, ou porque esteja entediado. É simplesmente uma vontade que vem. E não há um assunto específico. Não preciso escrever sobre a condição de minha natureza humana, sobre a enfermidade que me acomete, sobre os dilemas que começaram a se passar em minha cabeça, nem sobre toda a sorte de dúvidas que me tem rondado e deixado indeciso. Não preciso escrever sobre isso porque não é sobre isso que quero escrever. Queria fazer um texto descomprometido. Sem autor, sem dono. Um texto que pudesse ser de qualquer um. Tanto meu como de uma criança contando como foram suas férias. Um texto sem coerência, sem coesão. Um texto até sem palavras. Um texto sem compromisso de ser texto. Queria escrever arte. Fazer arte. Escrever algo pra que ninguém lesse. Tenho pra mim que é dessa maneira que nascem os melhores textos.

Um comentário:

jay disse...

ah, um texto que é escrito e não é lido por ninguém, não passa de um pensamento materializado em papel. Cito o poeta (e como é comodo citar poetas)
A torneira seca
(mas pior: a falta
de sede)
A luz apagada
(mas pior: o gosto
do escuro)
A porta fechada
(mas pior: a chave
por dentro)
Acreditar
(mas pior : estar cético)
Brincar com as palavras
(mas pior: escreve-las)

Ás vezes as palavras encadeiam-se, a ideia surge - reune-se o material necessario: a ideia, o tempo, papel, um lápis. De repente tudo flui. Se eu tivesse um blog escreveria assim:
A analogia do desejo.
Um torso que eu imagino de um tronco de um pinheiro, solitário, distinto, de um vasto pinhal.
De uma árvore vejo um ser que com toda a lentidão no seu crescimento, me seduz, tanto quanto eu me sinto embevecido pela beleza das formas e da idade, nos torneados que os ramos exibem, e me convencem que me querem abraçar. E eu abraço, tão devagarinho temendo que o momento vulgar de um abraço seja curto para me fazer feliz. De cara encostada mas que me deixa inalar o odor resinoso que exala do peito do seu torso-tronco, eu, entre o meu corpo já desnudo, envolvo-me com aquela árvore que imaginei humana. Os ramos, provocados pelo vento, roçam entre si e gemem em uníssono comigo, alinhados num mesmo movimento que me prazenteia brutalmente. Num turbilhão imediato e repentino, nascido da forca do desejo e da imaginação, explicito a minha intimidade no reino vegetal, porque, agora e onde tudo é possível, a vontade engrossa os limites do meu corpo, as minhas mãos tacteiam tanto quanto podem, parecendo gritar pela minha própria voz
No perfume de toda a fantasia eu entrego-me aquela imagem, com tanto empenho que o ímpeto do meu corpo humedece, a seus pés, com a minha própria seiva, um traço da minha masculinidade.
A identidade do meu desejo que partilhei com a natureza, é tão branca como a carne fresca do pinhão que procuro por entre a caruma caída. Como semente, germinará , novamente, na minha imaginação, noutro lugar, onde houver quem me seduza.


E falavas tu de ideias que nunca tinham saido do papel, Está estava guardada há anos.