
O que me fascina na literatura são os mundos possíveis que ela é capaz de criar. Eu disse possíveis? Dormir humano e acordar inseto, sabemos, é algo que na vidinha nossa de cada dia não cabe. Na literatura cabe. Reformulemos então a frase. O que me fascina na literatura são os mundos (im)possíveis que ela é capaz de criar. A Metamorfose, de Franz Kafka, talvez seja o exemplo mais apropriado. Em uma narrativa que prende o leitor desde a primeira frase, a estória do homem que se transforma em um inseto fascina por sua estranheza. É uma estória que incomoda, que perturba. Gregor Samsa um dia se descobre inseto, e longe de desesperar-se, trata aquilo como se fosse um sintoma de uma doença qualquer, como ter apanhado uma gripe, por exemplo. No entanto, pelo menos pra mim, a genialidade desta obra está em como mostrar uma realidade possível e existente através de um fato absurdo e inconcebível no nosso universo. A metamorfose de Gregor acarreta mudanças não apenas para ele em sua condição física. Todos ao seu redor se metamorfoseiam com ele. Foi preciso que Gregor se transformasse pra que a família, antes acomodada e sustentada por ele, passasse também por um processo de transformação. Mais do que a estória de um homem que acorda inseto, a novela de Kafka nos mostra como somos transformados pelo que nos rodeia, pelo que nos atinge. Adentrar por esses mundos por vezes obscuros que a literatura é capaz de criar nos ajuda a entender melhor a nossa condição. E se somos transformados pelo que nos rodeia, que a literatura seja capaz de proporcionar as metamorfoses de que necessitamos.