quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A metamorfose - Franz Kafka


O que me fascina na literatura são os mundos possíveis que ela é capaz de criar. Eu disse possíveis? Dormir humano e acordar inseto, sabemos, é algo que na vidinha nossa de cada dia não cabe. Na literatura cabe. Reformulemos então a frase. O que me fascina na literatura são os mundos (im)possíveis que ela é capaz de criar. A Metamorfose, de Franz Kafka, talvez seja o exemplo mais apropriado. Em uma narrativa que prende o leitor desde a primeira frase, a estória do homem que se transforma em um inseto fascina por sua estranheza. É uma estória que incomoda, que perturba. Gregor Samsa um dia se descobre inseto, e longe de desesperar-se, trata aquilo como se fosse um sintoma de uma doença qualquer, como ter apanhado uma gripe, por exemplo. No entanto, pelo menos pra mim, a genialidade desta obra está em como mostrar uma realidade possível e existente através de um fato absurdo e inconcebível no nosso universo. A metamorfose de Gregor acarreta mudanças não apenas para ele em sua condição física. Todos ao seu redor se metamorfoseiam com ele. Foi preciso que Gregor se transformasse pra que a família, antes acomodada e sustentada por ele, passasse também por um processo de transformação. Mais do que a estória de um homem que acorda inseto, a novela de Kafka nos mostra como somos transformados pelo que nos rodeia, pelo que nos atinge. Adentrar por esses mundos por vezes obscuros que a literatura é capaz de criar nos ajuda a entender melhor a nossa condição. E se somos transformados pelo que nos rodeia, que a literatura seja capaz de proporcionar as metamorfoses de que necessitamos.

9 comentários:

david era uma vez... disse...

Bruno meu querido.. dá pra acreditar que eu li esse livro quando tinha 11 anos... claro que eu li e pouco percebi o que realmente Kafka queria dizer, achei engraçado, mas apesar de absurdo o que eu vou dizer, foi por causa desse livro que passei a ler Monteiro Lobato, pois caiu em minhas mão "a Chave do Tamanho" e na minha cabeça de criança tudo tinha algo a ver.. ai eu vicie em ler ML. Coisa estranha isso, mas como eu não sou normal mesmo.

Beijos Bru...
Vou pegar esse livro(A Metamorfose) lá na minha mãe e vou ler de novo... vou recordar minha infancia

Marcelo R. Rezende disse...

Meu sonho é ler esse livro.
Tem duas frases geniais, uma de Clarice e outra de Cecília, que definem o que somos através do que consumimos, seja de arte, relações ou quaisquer outras coisas. Mas como não lembro das benditas, deixarei no mistério, rs.
A única coisa que eu sei, com muita certeza, é que a literatura muda demais o homem, engrandece, quebra preconceitos e, claro, melhora muito o xaveco, rs.

Super beijo, bRu!

Marcio Nicolau disse...

Percebo intertextualidade entre as nossas últimas postagens.

:)

Marcio Nicolau disse...

Bruno, li teu comentário no InterTextual e, sim, você tem razão: um detalhe a mais e a transPiração por lá era total. Pena que a palavra não coube.
Vi a convergência com o teu texto a respeito de Kafka, em função da noção de transMutação, metamorfose, a passagem de um estágio ao outro.
Muito obrigado por estar presente e contribuindo sempre. A idéia é essa mesmo: quando ocorre interAção, reciprocidade, todo mundo ganha. Gosto da proposta do teu blogue de resenhas e digo, desde o início (você deve se lembrar) que vejo bastante qualidade na tua escrita.
Um abraço e bem vindo mais uma vez.

Marcio.

Marcelo R. Rezende disse...

Poxa, Bru.
Nem sei o que dizer.

railer disse...

belo texto!

Marcelo R. Rezende disse...

Ao mesmo tempo que é bom ser o encontro de alguém consigo mesmo, através do que eu escrevo, fico meio triste, pois que o texto também o é... e tristeza nunca é legal.

Fique bem, Bru.
Grande beijo, muita saudade!

fauller disse...

Ótima resenha, para um dos meus livros preferidos. Seu texto faz a gente pensar boas coisas, e até lembrar nomes como Clarice e Cecília, tão necessárias na nossa literatura não é Marcelo?

Um beijo bRu.

Dario Dariurtz disse...

É um dos livros que levo comigo... O poder da mente de um homem pode fazer qualquer coisa. Kafka conseguiu fazer tudo.

Abraço, sigo-te.