sábado, 25 de setembro de 2010

Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley.


Diferente do que sempre faço, ao invés de escrever uma resenha sobre o livro que acabo de ler, dessa vez eu comentarei algo que minha última leitura suscitou em meus modestos pensamentos. Depois de ler Laranja Mecânica e 1984, estava faltando o romance que junto com os outros dois citados fecha a santíssima trindade da literatura de ficção científica: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. O livro é bom. E dele direi apenas isso. O assunto que me faz escrever, no entanto, é a diversidade de questões que a obra levanta a medida que avançamos na leitura. Temos descrita uma sociedade estabilizada, em que homens e mulheres são concebidos em série e para um determinado fim. O que para mim pareceu assustador é que não estamos tão longe disso. Há algum tempo, as humanidades foram tendo cada vez menos espaço nos currículos escolares. O que isso significa? Que a música, a literatura, a arte de maneira geral teve que ceder espaço para disciplinas que visam formar profissionais qualificados para determinados tipos de mão-de-obra. Resumo da ópera? Um estudante de medicina, por exemplo, não precisa mais ler a Ilíada ou Shakespeare, ou Machado de Assis (para isso os cursinhos imprimem resumos e mais resumos), não precisa mais descobrir suas aptidões artísticas, que desenvolveriam um lado mais humano, não precisam apreciar um Picasso, nem se encantar com os poemas de Neruda, nem ouvir uma sinfonia de Beethoven. Um estudante de medicina precisa unicamente cortar, costurar e receitar. Não estou desmerecendo o trabalho dos médicos, longe de mim, que respeito todas as profissões. O que quero dizer é que caminhamos rumo a uma sociedade tão cruel em que perder um ano da vida por não ter passado no vestibular parece algo sacrílego, quando na verdade pode ser saudável. Não existe uma idade pra se ingressar em uma profissão, mas o tempo todo somos cobrados e pressionados a passar o quanto antes em um vestibular, em cursar uma faculdade no menor tempo possível, e a pegar o diploma e morrer trabalhando, se a aposentadoria não chegar antes. Estamos sendo criados, como os personagens do livro, para desempenhar um papel puramente político e econômico na sociedade, e ponto final. Carpe diem? Ora, vivemos em um mundo em que aproveitar o dia é ter trabalhado e conseguido cumprir as metas pra poder comprar aquele televisor, e mais aquela roupa, e mais aquele telefone novo. Shakespeare já não está cabendo no nosso mundo. Machado tem se tornado uma voz distante no tempo. Viver é estar formado aos vinte e poucos anos, desempenhando a função que nos foi delegada. E de preferência nunca estar sozinho, pois a solidão nos faz descobrir quem realmente somos. Não pensemos em nada, não pensemos na vida, nem na morte, nem na arte, nem façamos grandes questionamentos... Aceitemos tudo e façamos parte desse mundo, desse admirável mundo novo.

5 comentários:

Marcio Nicolau disse...

o que mais me chama atenção no teu texto (brilhante, como sempre) é esta afirmação: "nunca estar sozinho, pois a solidão nos faz descobrir quem realmente somos." Perfeita e reveladora afirmativa que, ao meu ver, explica as neuroses modernas. A fuga, um mecanismo amplamente utilizado e, em contrapartida os "temores que nascem do cansaço e da solidão. E o descompasso, o desperdicio, herdeiros são agora da virtude que perdemos, há tempos"

Admirável mundo novo é, na verdade, "um museu de grandes novidades"

Parabéns por mais um texto inteligente e estimulante.

Marcelo R. Rezende disse...

Genial.
Não direi mais porque esse texto falou tanto sobre mim, que chegou a doer.

Beijo, bRU!

@redsonpagnan disse...

Perfeição de texto *-* amei

- um anjo ateu. disse...

Olha só, um pensamento que realmente me agradou e que talvez eu faça parte. Não gosto de como a sociedade tem moldado as pessoas, de como ela tem formado os padrões e o povo tem engolido e aceitado sabe? Vivemos em baixo de regras e políticas de qualidade, somos escravos do trabalho e de nossa formação. Acho terrível, já que estamos esquecendo como é o nascer do sol, por não termos 10 segundos pra apreciá-lo.

david era uma vez... disse...

Realmente o livro se mostrou profético... claro que tudo fantasioso... mas se enxergarmos sob a fantasia veremos que tudo isso já é realidade!

Beijos Bru...

Menino vc escreve bem demais