sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ressurreição - Machado de Assis.


Machado de Assis, o mais amado e o mais odiado escritor brasileiro, é conhecido pelos leitores por suas obras mais famosas e mais maduras do ponto de vista literário. Difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido falar de Capitu, ou que não conheça a máxima do filósofo Quincas Borba: “ao vencedor as batatas.” No entanto, talvez pelo trauma que muitos nutrem em relação à literatura machadiana por sua obrigatoriedade no ensino, e pela falta de profissionais competentes para abordar a complexidade da obra do nosso escritor para jovens estudantes, Machado acaba se transformando em um monstro genial, que deve interessar apenas aos profissionais de literatura e aos intelectuais de plantão. Enganam-se. Machado é um exímio descobridor da natureza humana. Nenhum escritor nacional soube explorar o comportamento do homem como Machado de Assis. Nenhum denunciou tão sutilmente as relações entre os homens como fez o nosso gênio. E se pensamos nas suas obras maduras como Dom Casmurro, Quincas Borba, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Esaú e Jacó, Memorial de Aires, não nos esqueçamos que já na sua fase romântica o escritor apresentava características inovadoras para a literatura da época; já na sua primeira fase literária Machado ia a fundo na investigação introspectiva dos personagens. Ressurreição, seu primeiro romance publicado em 1872 traz a conflituosa relação entre os sexos, que anos mais tarde seria novamente explorada em seu clássico Dom Casmurro. Já no seu romance de estréia Machado nos presenteia com uma mulher independente e altiva diante dos códigos sociais de sua época. Lívia, a protagonista, é de uma complexidade fascinante, como é a Capitu de Bentinho. Machado desenvolve algo que podemos chamar de romantismo realista, pois embora inspirada na escola de José de Alencar, a fase romântica de Machado é distinta em seus conceitos e estética. Machado não procura apresentar uma visão totalizante do país, ao invés disso trabalha com um recorte urbano, em que aborda as relações de poder entre os indivíduos da sociedade, sejam homens ou mulheres. Embora algumas características predominantes da escola romântica estejam presentes na primeira fase literária de Machado, como o amor febril, o bem versus mal, por exemplo, Machado recusa as temáticas indianistas, e outras temáticas da escola de Alencar, e começa a escrever uma obra que ganha caráter distinto dentro do quadro da literatura nacional. Machado, ao invés do ufanismo e da exaltação do Brasil, se concentrará nas relações sociais entre os indivíduos. Para Machado, a identidade nacional não está nos índios, nas árvores ou na natureza, mas sim na sociedade. E já em Ressurreição o leitor pode encontrar um retrato do Brasil da época, descrito através de relações entre os indivíduos que, salvo algumas características de tempo e espaço, são relações que pouco ou nada se alteraram ao longo dos anos, desde que a obra foi escrita. Desde seu primeiro romance até o último, bem como em seus contos, Machado soube retratar o Brasil não procurando caracterizá-lo como uma terra distinta das outras, mas chamando a atenção para uma sociedade que não é diferente das outras. Sua denúncia se aplicaria a qualquer lugar em que indivíduos são obrigados a manter relações sociais. Por isso a crítica de Machado continua viva, e nossos leitores devem perder (se o tem) o trauma do mais genial escritor que a literatura brasileira concebeu. Machado não é leitura de vestibular. Machado é leitura do homem e das relações que ele estabelece com o meio onde está inserido. Leiamos.

5 comentários:

Marcelo R. Rezende disse...

Sempre leio e amo o Machadão. Ainda tô brigado com ele, rs, mas logo mais pego um outro livro dele e leio.

O que eu mais gosto no danado é o que ele faz com as pessoas. Ele as destrói, as mostra como são MESMO, sabe? Ninguém é herói, certo ou totalmente errado. Todos são humanos e isso é lindo.


Beijo, Bru.

Palavras Vagabundas disse...

Bruno,
Ressureição eu li ha muitos anos e certamente não está em meus prediletos, mas vou reler após sua análise.
abs
Jussara

Felipe Faverani disse...

Oi, Bru, tudo bem?
Adorei a sua análise dessa obra do Machado! Realmente não tem como não ler o que ele produziu. Machado foi um gênio da descrição social!

david era uma vez... disse...

Nossa Bruno, cada vez que vc coloca uma 'resenha' comentada de um livro, não tem como não ficar morrendo de vontade de lê-lo.
Vou começar a reler todo Machado... faz tanto tempo, acho que agora que estou maduro (aja maduro) tudo será melhor!

Beijos meu querido amigo

"Carol docE" disse...

Adorei a tua síntese sobre essa obra maravilhosa que por um bom tempo foi meu livro de cabeceira (na infância).

Machado de Assis é bárbaro.





Sucesso no blog.